Quando a Vida Perde Valor
Por Professor Dal Zotto
Uma figura humana, quase sombra, segura um animal ferido como quem segura o último resto de sentido que ainda pulsa. Não há violência explícita ali — e talvez por isso doa tanto. Porque quando a vida perde valor, a violência não precisa mais aparecer: ela vira rotina.
Jesus contou uma parábola simples, quase ingênua aos olhos dos poderosos:
a do Bom Samaritano.
Um homem caído à beira do caminho. Espancado. Esquecido.
Passaram por ele os que tinham função, título, justificativa.
Viram. Sabiam. Seguiram.
Até que alguém parou.
– Não porque era lei.
– Não porque era obrigação.
– Mas porque ainda reconhecia valor na vida do outro.
Hoje, o mundo está cheio de caminhos com corpos invisíveis.
Gente caída por dentro.
Crianças feridas pelo abandono.
Animais que sofrem sem defesa.
Velhos esquecidos.
Pobres ignorados.
E consciências que passam apressadas, olhando para o lado.
A violência virou rotina porque o olhar virou hábito.
Olha-se, mas não se vê.
Sente-se, mas não se reage.
Sabe-se, mas não se para.
Na imagem, não há pressa.
Há cuidado.
Há silêncio.
Há humanidade.
É exatamente isso que falta quando a vida perde valor:
alguém que pare.
Jesus não perguntou quem merecia ajuda.
Não perguntou de quem era a culpa.
Não perguntou se valia a pena.
Ele mostrou que a maior violência não é o golpe —
é a indiferença organizada,
é o costume de seguir em frente enquanto o outro sangra.
Quando a vida perde valor, a violência vira rotina.
Mas quando alguém ainda abraça,
ainda protege,
ainda se compadece,
– o Reino de Deus insiste em nascer de novo,
mesmo no meio da lama,
mesmo na estrada esquecida,
mesmo quando o mundo já se acostumou a passar.
Talvez a pergunta não seja onde está a violência.
Ela está por toda parte.
A pergunta verdadeira é outra:
ainda somos capazes de parar?

