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Sem “loucura”, Muricy se diz preparado para Seleção e Europa

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Único tricampeão brasileiro com um mesmo time e pupilo do gênio Telê Santana, Muricy Ramalho acredita que está pronto para novos desafios na carreira. Em entrevista exclusiva ao Terra, gravada no último dia 3, o técnico fala sobre a sua experiência e que os resultados conquistados já mostram que está mais do que preparado para dois dos maiores desafios na vida de um treinador de futebol: Seleção Brasileira e Europa.

No entanto, para chegar ao estágio de estar à frente da equipe pentacampeã do mundo, Muricy acredita que não é preciso fazer “loucuras”. Segundo o treinador, esse posto não é uma obsessão em sua vitoriosa carreira. Mas quando a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) chamá-lo, ele se diz pronto para assumir.

“Eu não tenho essa loucura. Sempre me preparo para o dia seguinte, tentando melhorar alguma coisa, algum treinamento. Não trabalho pensando na Seleção Brasileira, pois lá nós temos um técnico”, afirmou o treinador.

Confira a entrevista com Muricy na íntegra:

Terra: Essa é a sua segunda casa, não é, Muricy?
Muricy Ramalho: Acho até que é a primeira, porque eu fico mais tempo aqui do que na minha própria casa durante o ano. Aqui é minha segunda família, pois tenho uma amizade muito grande com todos que trabalham aqui no CT. Todos são funcionários como eu.

Terra: Passava pela sua cabeça ser treinador do São Paulo?
Muricy Ramalho: Foi um primeiro clube, comecei na escolinha com 9 anos de idade e passei por todas as categorias. A pessoa quando pára de jogar sempre procura um clube pelo qual ela já jogou, já tem uma história. E também procura a estrutura, porque para ser um bom técnico se precisa de uma boa escola. E o São Paulo é essa escola, nos dá uma boa base. Por isso o São Paulo sempre foi minha preferência.

Terra: Como foi seu primeiro dia como auxiliar técnico do São Paulo?
Muricy Ramalho: Sei que ia ser difícil porque conhecia o Telê Santana. Ele foi meu treinador na minha primeira passagem pelo São Paulo. O projeto é que ele ia parar de treinar em quatro, cinco anos. E a idéia era que ele preparasse um cara para substituí-lo no comando. Ele tentou alguns outros treinadores, mas não deram certo. Quando me chamaram, já tinha uma idéia de como lidar com o Telê. Fui lá, me apresentei a ele, disse que estava à disposição. Ele só cumprimentou e não falou mais nada, pois ele não é muito de falar. Mas eu entendia, ficava perto dele, falava pouco e ia me entrosando. Me dei bem porque sabia respeitá-lo.

Terra: Apesar de ter ido bem no Inter, seu nome é muito ligado ao São Paulo. Você treinaria um dos rivais? Corinthians, Palmeiras, Santos…
Muricy Ramalho: Quando eu comecei no São Paulo tinha essa coisa de não poder treinar um clube rival. Mas eu sou profissional e já recebi convites de outras equipes. Eu sou um profissional do futebol e as pessoas têm de entender isso. Mas o problema é que eu fico muito tempo nos clubes que eu vou. Crio raízes. Foi assim no Náutico, no Internacional. Voltei para a minha casa, estou feliz, mas minha profissão é essa. Todo clube que eu vou visto a camisa mesmo. Minha relação com o São Paulo está muito bem fortalecida, faço tudo pelo clube, para o torcedor ficar feliz. Mas eu sou profissional.

Terra: O que mais te irrita quando você está em campo?
Muricy Ramalho: Quando a gente treina alguma coisa e na hora o jogador não cumpre. O cara tem que cumprir, pois nosso time depende muito de treinamento e parte tática. É tudo definido, bola parada, quem bate… Gosto muito dessa coisa organizada, porque o futebol de hoje é assim. Outra coisa que me irrita é o erro de passe. Em um campo como o Morumbi é brincadeira errar um passe. O jogador não tem o direito de fazer isso. Mas você tem que cobrar, porque às vezes o jogador se acomoda. Precisa ter alguém no pé.

Terra: Me lembro de um jogo contra o Chivas, na Libertadores, que você teve um problema e foi parar no hospital. Como foi isso?
Muricy Ramalho: Eu me concentro sempre um dia antes do jogo no CT. Vejo um filme, procuro algum detalhe que possa ajudar o time. Pela manhã do dia do jogo saio para caminhar, correr. Preciso praticar alguma atividade. Depois do jogo senti uma cãibra no braço, normal porque eu tinha feito atividade durante o dia. Mas quando você fala isso para um médico ele não te deixa dar mais um passo, quer te internar de qualquer jeito. Fui falar perto do médico do São Paulo e ele não me deixou sair. Saí de manhã do hospital, me viraram de ponta-cabeça e não tinha nada. Pedi para a minha mulher ficar tranqüila. Ela sempre pede para eu não ficar nervoso e digo que vou ficar sossegado no banco. Mas aí dá um minuto de jogo e vem um Souza da vida dar um passe errado, não tem jeito, aí eu fico nervoso mesmo. De um tempo pra cá me acalmei um pouco, estou me controlando mais.

Terra: O que mais emociona o Muricy?
Muricy Ramalho: Quando eu falo da minha família e dos meus filhos. Eles sofrem como eu quando o São Paulo perde. As pessoas têm de saber que nós temos filhos, mulher, que eles vão para a escola, a mulher vai no cabeleireiro. Então é perigoso você criticar um técnico e levar para o lado pessoal, chamar de burro. A criança vai na escola e falam ¿seu pai é burro¿. Eles sentem muito isso, pois a cobrança é muito grande em cima deles. Quando a final foi no Morumbi meus três filhos foram lá. Imagine a responsabilidade de ter que ganhar, eles lá te assistindo. Gosto sempre de estar em casa, conversar com eles, sair com eles. Meu estilo de vida é esse. Minha família, amigos. Por isso dou tanta importância e me emociono muito.

Terra: Qual foi a última vez em que você chorou com eles?
Muricy Ramalho: Foi na chegada de Brasília, na final contra o Goiás. Chegamos a 1h no aeroporto, fomos direto para a churrascaria, onde eles já estavam nos esperando. A semana foi muito dura, pois não vencemos o Fluminense e passamos uma semana inteira naquele stress. Ali choramos todos juntos, em relação ao futebol.

Terra: Qual foi sua maior alegria no futebol?
Muricy Ramalho: Tive tantas alegrias que nem sei. Talvez meu primeiro título como técnico, com o Expressinho em 94. Falaram para eu arrumar qualquer time, pois o mata-mata seria com o Grêmio e achavam que já seríamos desclassificados. Como eu conhecia todos da base, fui pegando um e outro. Todos foram ficando famosos: Caio, Rogério Ceni, Catê, Ronaldo Luís, Pavão, Jamelli, Denílson… Fomos caminhando e saímos campeões em cima do Peñarol. Marcou meu início e chamei a atenção como técnico. Esse último também foi marcante. O tricampeonato entrou para a história, ninguém conseguiu ser tri consecutivo com o mesmo time. Isso aí ninguém tira mais. Na China foi importante também, era uma cultura muito difícil. Posso dizer que tenho sorte.

Terra: E as maiores tristezas?
Muricy Ramalho: Quando eu perco um jogo já fico doente. Outro dia empatei com o Paulista e já não dormi. Por isso o São Paulo perde muito pouco, passo isso para os meus jogadores. Aqui tem que ser sempre no limite, para ganhar tem de ser muito melhor do que a gente. Ficamos muito tristes mesmo com derrotas.

Terra: E decepção mesmo? Qual foi a pior?
Muricy Ramalho: Essa foi como jogador. Em 78 eu era muito cotado para ir à Copa do Mundo. Então havia os meias naquela época. Os meias direitas da época eram o Zico, que era fera e o melhor. Para a reserva havia duas possibilidades, que eram eu e o Jorge Mendonça. Com certeza eu iria, pois estava um pouquinho melhor do que o Jorge. Mas aí tive uma contusão no ligamento cruzado, pertinho da convocação. Foi uma frustração enorme, pois todo jogador quer ser convocado e eu estava muito próximo desse sonho.

Terra: Você se vê na Seleção Brasileira um dia?
Muricy Ramalho: De tanto as pessoas falarem, acredito. O técnico tem de estar preparado para tudo. Sempre me perguntam se eu iria para a Europa. Eu não sei, mas me preparo e assisto muito futebol estrangeiro. Campeonato Italiano, Espanhol, Inglês, que é meu preferido. Fico acompanhando, me atualizo, para não ser pego de surpresa. Procuro me informar, saber como funciona lá na CBF, como é o trabalho. O técnico é obrigado a fazer isso, não posso parar. Não é que eu me veja na Seleção Brasileira, até porque não quero atrapalhar o trabalho de ninguém, mas estou preparado.

Terra: Está no seu objetivo de carreira a Seleção?
Muricy Ramalho: Eu não tenho loucura. Sempre dou o exemplo do Vanderlei Luxemburgo. Ele já traçou que o objetivo dele é retornar à Seleção, já estabeleceu como objetivo. Eu não tenho essa loucura. Sempre me preparo para o dia seguinte, tentando melhorar alguma coisa, algum treinamento. Não trabalho pensando na Seleção Brasileira, pois lá nós temos um técnico. Mas se um dia eu for convidado estarei preparado.

Já pensei nessa rotina de Seleção. Deve ser muito parada. A gente percebe que a maior dificuldade é nos treinamentos. Se encontram em um dia, no outro já jogam. Não sei como é isso, deve ser bem difícil. Tem só de observar jogos, não sei como eu me sentiria nisso, pois gosto de ficar no dia-a-dia. Isso é o que o técnico tem que fazer. Se você pára um tempo, fica meio fora do que acontece. Não sei como o técnico da Seleção se sente trabalhando só de vez em quando.

Terra: O que mais te irrita? O dirigente falar algo ou um jornalista formular mal uma pergunta?
Muricy Ramalho: Tem muitas pessoas, quando eu vou viajar, que querem ficar perto de mim para saber se eu sou rabugento e mal-humorado. Não sou nada disso do que as pessoas pensam, sou totalmente diferente. Eu converso com dirigente depois de jogo. Nos corredores não dou essa chance. Só converso mais com o Juvenal Juvêncio, quando ele tem tempo, pois quase não fica no CT. Ele deixa na minha mão porque sabe que vai funcionar. Eles têm confiança no trabalho. O que não dá para entender é uma pessoa que tem um microfone ou está escrevendo estar mal informada. Então fazem uma pergunta que nada tem a ver. Tem que se preparar, às vezes a pessoa dá uma informação que não tem nada a ver. Tenho um monte de amigos na imprensa, alguns particulares. Coletiva depois de jogo é terrível, sua cabeça está a mil. O repórter tem que tirar proveito dessa situação, na alegria ou na tristeza. É o trabalho dele. Minha função é me defender às vezes, então por isso dou aquelas respostas de vez em quando.

 

Crédito: Terra

 

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