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Moradores e comerciantes lamentam prejuízos causados pelos atrasos nas obras da Copa

 Moradores e comerciantes lamentam prejuízos causados pelos atrasos nas obras da Copa
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A conciliadora cível Samile Skrzypek, 37 anos, tem um desejo esquisito: ouvir o barulho de máquinas escavadeiras. A saudade deste ruído que enlouquece qualquer um tem explicação. Cada dia sem máquinas trabalhando no que virá a ser a trincheira da Rua Anita Garibaldi é mais um dia de poeira e valetas abertas. Por ali, os trabalhos se rastejam. O tempo que passa é calculado pela altura de um pé de tomate, que cresceu sobre os montes feitos de entulho e terra — e já carrega frutos maduros.

— Costumo dizer que minha calçada é o buraco da Anita — resume.

Samile é uma das reféns dos transtornos provocados por obras que, previstas para a Copa do Mundo, se atrasarão em pelo menos um ano. No caso da obra da Anita, que a prefeitura estima que esteja pronta em julho deste ano, o prejuízo dos moradores é conviver com a poeira, uma valeta de água podre aberta com as escavações, buracos e poças de água — que a vizinhança já chama de “lagos artificiais”. Mas o desgaste afeta também o bolso.

 

A cinco quadras da paisagem de tomates e lagos junto à Anita, outra passagem de nível está em curso, na Avenida Cristóvão Colombo — desde 2013 e com previsão de acabar em outubro deste ano. E fez com que os dois lados da avenida fossem tomados por placas: aluga-se, vende-se. 

Mas ninguém quer.

Manfredo Caye, 79 anos, cirurgião dentista aposentado, é proprietário de um edifício residencial de oito apartamentos — dos quais apenas dois estão alugados. O motivo é o mesmo pelo qual, na tarde desta quarta-feira, Caye deixou seus dois carros na oficina mecânica: para sair de casa é preciso arrancar de marcha a ré, colocar potência para subir um morro e ter destreza suficiente para logo frear, sem bater nos tapumes dispostos ali na calçada. 

— Ficou inviável. Minha mulher já não sai mais de casa com o carro. E eu já bati os dois. Acredito que pelo mesmo motivo, os vizinhos foram encerrando os contratos aos poucos. Se você olhar para o lado, vai ver: está tudo vazio — diz Caye, que ajudou o pai a erguer o prédio, em 1952.

 

Uma quadra abaixo, ainda na Cristóvão, o administrador Nelson Stelmaszczyk arca com as despesas de uma sala comercial desocupada há um ano em função da obra — “mas o IPTU ninguém abate”, retruca.

— Havíamos feito um fundo para cobrir os gastos com esse período, que era do início de 2013 até a Copa. Mas o planejamento não foi o mesmo na prefeitura. Até pensei que fossem postergar a Copa para acabar as obras antes — brinca o proprietário, em tom de lamentação.

Com o novo prazo para a entrega da trincheira, a alternativa encontrada por Stelmaszczyk foi passar a oferecer a casa pela metade do valor do aluguel, e ainda com dois meses de carência. Na tarde da última quarta-feira, a placa “aluga-se” continuava pregada no portão.

 

Os transtornos descem a Perimetral em direção ao aeroporto. Talvez com atraso de dois anos, em junho de 2016, Edson Luis Possamai, dono de um posto de combustíveis próximo às obras da trincheira da Av. Ceará, poderá se dizer contemplado pelo legado deixado pelo Mundial. Por enquanto, é só lamúria. 

Forçado pela queda no movimento, provocada pelo fechamento da Av. Farrapos, bem em frente ao seu estabelecimento, Possamai demitiu cerca de 30 dos 40 funcionários e enfrenta uma queda nas vendas de cerca de 65%.

— Nosso maior produto era o gás natural, que já deixamos de vender, porque não compensa. Ninguém entra aqui. É desesperador — resume o empresário.

 

Resta enfrentar o desalento com o humor. Lá na Rua Anita Garibaldi, foi estendida uma faixa no último dezembro. Sob ela, moradores da redondeza se reuniram em um churrasco para “celebrar” o segundo aniversário da obra. O convite e a ideia foram do médico Paulo Basso, que mora há oito anos em um dos edifícios próximos ao canteiro. Diante da impotência em relação à demora da obra, além do barulho das máquinas operando a mil, surge então um segundo desejo:

— Só não quero ter de “comemorar” um terceiro aniversário — afirma Basso.

 

O que diz a prefeitura

Zero Hora questionou a prefeitura sobre os prejuízos e transtornos provocados pelos atrasos nas obras. Em nota, a Secretaria de Gestão afirmou que a demora na execução dos projetos se deve a contratempos não previstos no início dos trabalhos — como uma rocha descoberta durante as escavações na Av. Anita Garibaldi, a desapropriação de um imóvel na Cristóvão Colombo e uma alteração na “metodologia construtiva” da trincheira da Av. Ceará. 

Sobre a água verde acumulada em uma parte da obra na Anita, a prefeitura afirmou que a empresa responsável está providenciando os reparos no local. Questionada, a prefeitura não se manifestou sobre a possibilidade de abater o IPTU de imóveis prejudicados pelas obras.

— Temos consciência que esse conjunto de obras, uma conquista da cidade para a qualificação da infraestrutura, causa alguns transtornos para parte da população e empenhamos o máximo de esforço para minimizá-los. Porém, em razão dessas intervenções acontecerem em uma cidade viva, é difícil evitá-los totalmente. É importante  reconhecermos o legado que estas obras deixarão para Porto Alegre e seus cidadãos — disse o secretário.

 

Crédito: http://zh.clicrbs.com.br/rs/porto-alegre/noticia/2015/02/moradores-e-comerciantes-lamentam-prejuizos-causados-pelos-atrasos-nas-obras-da-copa-4694689.html

 

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