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Há 90 anos, seleção iniciava trajetória vitoriosa com o seu primeiro grande título

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Recordista de títulos mundiais, a seleção brasileira de futebol hoje impõe respeito em qualquer gramado que pise neste planeta. A camisa verde e amarela, imponente com as suas cinco estrelas bordadas, é um verdadeiro patrimônio nacional. Muitos dos que se orgulham deste passado glorioso, no entanto, desconhecem que foi preciso muita luta e suor para que o “team brasileiro” se consolidasse no cenário futebolístico. Os primeiros passos foram dados há exatos 90 anos com a conquista do Campeonato Sul-Americano, primeiro título de grande relevância da seleção. O dia 29 de maio de 1919 foi o pontapé inicial de uma das trajetórias mais vitoriosas do esporte mundial.

O futebol começou no país como uma forma de entretenimento das elites. Trazido pelos ingleses para o Brasil, era prioritariamente disputado em clubes fechados, onde apenas sócios tinham acesso. Aos poucos, foi ampliando o número de seus admiradores, mas a carência por ídolos e títulos freava o aumento de sua popularidade. A competição de 1919 rendeu os ingredientes necessários para que os brasileiros o escolhessem como uma de suas principais paixões. Primeiro torneio de nível internacional realizado em solo brasileiro, abriu caminho para a democratização do esporte. O troféu de campeão conquistado sobre o poderoso Uruguai foi um prêmio também para o público, que demonstrou muita empolgação ao longo de todo o campeonato.

Em uma triste coincidência, assim como o mundo enfrenta hoje uma epidemia de gripe, também na segunda metade da década de 10 uma gripe fez grandes estragos no cotidiano da população. A chamada “febre espanhola” trouxe prejuízos também para o esporte. O calendário do futebol foi alterado em 1918, porque a situação era muito crítica. A terceira edição do Campeonato Sul-Americano, que já havia sido disputado em 1916 e 17, teve de ser adiada para 1919, quando o quadro era um pouco mais ameno.

O brasileiro em 19 convivia ainda com um ambiente político desfavorável, em um período conhecido como República Velha. Denúncias de corrupção, fraudes eleitorais e favorecimentos às classes mais ricas eram constantes. A população encontrou na seleção brasileira de futebol uma maneira de se sentir representada de forma democrática, principalmente porque os jogadores eram de diferentes classes sociais. Uma vitória daquele time simbolizava a vitória do povo. O jornal “A Rua”, na edição do dia 7 de maio, traduziu o sentimento que envolvia os preparativos da competição, responsável pelo “esquecimento” da gripe espanhola.

“Antes do campeonato, o football aqui já era uma doença: agora é uma grande epidemia, a coqueluche da cidade, de que ninguém escapa”.

O estádio das Laranjeiras, na sede do Fluminense, foi especialmente construído para a realização do Campeonato Sul-Americano. Quando as delegações de Chile, Argentina e Uruguai desembarcaram de navio na Praça Mauá (Rio de Janeiro), já havia um palco estruturado para recebê-los. A equipe brasileira estava concentrada para o início da competição, apostando em craques como o goleiro Marcos de Mendonça e os atacantes Friedenreich e Neco. No comando técnico, uma comissão improvisada pelos jogadores Amílcar Barbuy e Arnaldo Silveira (capitão), além de Mário Pollo, Affonso de Castro e Ferreira Vieira Netto. O dia 11 de maio marcou a estreia da seleção brasileira e do estádio. Não poderia ter sido melhor: 6 a 0 sobre o Chile, com direito a três gols de Friedenreich.

Relatos e fotos da época dão conta de que o estádio estava lotado durante todas as partidas. Cerca de 18 mil pessoas cabiam confortavelmente nas arquibancadas. Os homens trajavam elegantes ternos e chapéus, as senhoras usavam seus melhores vestidos e adereços. Do lado de fora, uma multidão – que não tinha condições de pagar pelo caro ingresso – tentava ver a partida, subindo no morro das Laranjeiras ou se aglomerando próximo à redação do “Jornal do Brasil”, na Avenida Rio Branco (Centro da cidade), à espera do resultado. Independentemente do local em que estavam, todos puderam comemorar a segunda vitória, 3 a 1 na Argentina, no dia 18 de maio. Um novo show de bola da seleção.

Como os uruguaios também haviam vencido os seus dois primeiros jogos, o duelo contra os brasileiros no dia 25 de maio era uma verdadeira final. A equipe celeste jogou de luto pela morte do goleiro Roberto Cherry. Uma semana antes, o arqueiro havia se chocado contra um jogador na partida contra o Chile e precisou fazer uma cirurgia, mas não resistiu. Apesar disso, o time adversário não perdeu o ânimo e chegou a abrir 2 a 0 no placar. Mas graças a Neco, o primeiro grande ídolo da história do Corinthians, o Brasil arrancou o empate heróico em 2 a 2. Como na época não havia decisão por pênaltis, uma segunda partida foi marcada para o dia 27 de maio.

O futebol brasileiro ainda era uma incógnita naqueles tempos. O Uruguai era a potência do continente e reconhecido como uma das melhores equipes do mundo. Afinal, era o atual bicampeão sul-americano, derrotando o Brasil nas duas edições anteriores do campeonato. E seria bicampeão olímpico em 1924 e 28. A expectativa pela revanche era grande. Nenhum brasileiro queria perder novamente. O mundo passava por um momento de exaltação dos nacionalismos, e o duelo ultrapassava as quatro linhas. Os jornais brasileiros sabiam que o novo confronto, mesmo no Rio de Janeiro, seria uma verdadeira batalha.

Desde das 11h daquela quinta-feira, três horas antes da partida, muitas bandeiras eram vistas pelos morros adjacentes. O governo decretou ponto facultativo nas repartições públicas. Bancos e casas comerciais também fecharam as portas. Não se falava de outro assunto na cidade. Veio então a partida, embelezada pelo surpreendente número de senhoras nas arquibancadas, muito maior do que nos jogos anteriores. Durante os 90 minutos regulamentares, nada de gol. A partida foi para a prorrogação. Após 30 minutos, o placar continuava zerado. Os torcedores estavam tensos nas arquibancadas, os jogadores estavam exaustos em campo.

Foi preciso uma segunda prorrogação de mais 30 minutos. E foi aí que o artilheiro Friedenreich fez a diferença. Aos 3 minutos, Neco correu pela direita e lançou a bola para a área. Heitor recebeu e arriscou o chute, espalmado por Saporiti. A bola caiu nos pés do goleador brasileiro, que chutou à meia altura: 1 a 0. Após 150 minutos de disputa, o Brasil erguia a sua primeira taça de expressão. Estava plantada a semente para um futuro grandioso.

 

Crédito: Globo

 

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