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Doença arterial comum em idosos é detectada em múmias egípcias

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O ‘Livro do Êxodo’, na clássica tradução para o inglês da Bíblia do Rei James, descreve um faraó que “endureceu o coração” ante o êxodo dos judeus expulsos do velho Egito. Mas caso uma carta publicada na semana passada pelo Journal of the American Medical Association proceda, pode ser que o faraó estivesse simplesmente sofrendo de artérias enrijecidas.

A carta relata como uma equipe de cardiologistas usou tomografia computadorizada em múmias do Museu Nacional de Antiguidades Egípcias, no Cairo, para identificar aterosclerose – uma concentração de colesterol, inflamação e tecido cicatrizado nas paredes das artérias, problema que pode causar ataques cardíacos e derrames.

Cardiologistas foram capazes de identificar a presença da doença em algumas múmias, porque o tecido aterosclerótico muitas vezes desenvolve calcificação, que se torna visível em imagens de tomografia computadorizada na forma de pontos brilhantes. A constatação de que algumas múmias sofriam de enrijecimento arterial coloca em questão as ideias convencionais quanto à influência dominante de fatores da vida moderna, tais como o estresse, as dietas com alto teor de gordura, o fumo ou a rotina sedentária, no desenvolvimento de doenças cardiovasculares, afirmam os pesquisadores que enviaram a carta.

“Isso nos diz que temos de considerar mais que os estilos de vida e a dieta como causa e como agravantes dessa doença”, disse o Dr. Randall Thompson, cardiologista do St. Luke’s Mid America Heart Institute, em St. Louis, Missouri, e parte da equipe de especialistas em diagnóstico cardiovascular por imagem que viajou ao Cairo no ano passado. “Em certa medida, desenvolver essa doença é parte da condição humana”.

Em fevereiro de 2008, a equipe de cardiologistas formada por um egípcio e quatro norte-americanos conduziu tomografias de corpo inteiro em 20 das múmias do museu, todas em boas condições de preservação e, por isso, possivelmente dotadas de artérias ainda identificáveis. O estudo inclui igualmente duas outras múmias que já haviam passado por tomografias conduzias por outros cientistas.

Entre as múmias, 16 eram de membros da corte de um faraó, entre as quais dois sacerdotes, um ministro do reino e sua mulher, e a aia de uma rainha. Essas pessoas viveram entre 1981 a.C. e o ano 334 d.C., segundo os cardiologistas. Entre as 16 múmias que ofereciam tecidos cardíacos identificáveis, havia cinco casos confirmados e quatro prováveis de aterosclerose.

Os pesquisadores identificaram calcificação nas artérias das pernas e nas aortas de algumas das múmias, o que significa que esses egípcios do passado enfrentavam fatores de risco para problemas como derrames e ataques cardíacos – ainda que isso não signifique necessariamente que tenham contraído doenças cardíacas antes de morrer. Como no caso dos seres humanos modernos, a calcificação arterial estava mais presente nas múmias de vida mais longa. A pequena amostra que o estudo abarca e a posição socioeconômica elevada das múmias podem significar que as conclusões não se aplicam aos egípcios comuns do passado, disse o Dr. Adel Allam, o cardiologista egípcio da equipe.

“Eram pessoas ricas, e os hábitos de dieta e de atividade física que seguiam podiam diferir um pouco dos seguidos pelos demais egípcios que viveram em sua época”, disse Allam, professor assistente de cardiologia na Escola Al Azhar de Medicina, no Cairo. O grupo desenvolveu a ideia de examinar as múmias em busca de problemas arteriais em 2007, quando outro cardiologista, o Dr. Gregory Thomas, visitou Allam no Cairo e encontrou por acaso a múmia do faraó Menephtah, no museu. Uma placa ao lado da múmia explicava que o faraó, que morreu em cerca de 1200 a.C., sofria de aterosclerose.

Thomas, professor de medicina clínica e cardiologia na escola de medicina da Universidade da Califórnia em Irvine, não acreditou. “Para começar, como é que o pessoal do museu poderia saber?”, disse Thomas em entrevista por telefone, do Cairo, na semana passada. “Além disso, por que as pessoas que viveram três mil anos atrás sofreriam de aterosclerose, em uma era sem tabaco e em que desfrutavam de uma dieta completamente natural e, presumivelmente, caminhavam muito mais?”

O Supremo Conselho de Antiguidades do Egito concedeu permissão ao grupo para um exame das múmias, desde que nenhuma delas pertencesse às famílias reais. A equipe empregou um sistema de tomografia computadorizada, com o equipamento instalado em um trailer estacionado nos fundos do museu. O equipamento foi doado pela Siemens, fabricante de produtos médicos, e já havia sido utilizado por outra equipe de pesquisadores, em 2005, para um exame da múmia de Tutancâmon. A Siemens, o National Bank of Egypt e o St. Luke’s Mid America Heart Institute patrocinaram o estudo.

A mais antiga das múmias do grupo na qual foram encontradas artérias enrijecidas foi a da dama Rai, aia de uma famosa rainha, morta por volta de 1530 a.C., com idade entre 30 e 40 anos. Thompson afirmou que a calcificação em sua aorta parecia semelhante à vista em imagens de seus pacientes de ateroslerose, em Kansas City. “Ela chegou para o exame como relíquia”, disse Thompson sobre a múmia da dama Rai. “E saiu como paciente”.

Os hábitos modernos estão vinculados a doenças cardiovasculares, nas percepções do público – em parte, disse o Dr. Roger Blumenthal Jr., do Centro Ciccarone de Prevenção das Doenças Cardíacas, da Universidade Johns Hopkins, devido a correlações como a que existe entre o fumo e as doenças cardíacas. A incidência de doenças cardíacas aumentou no século XX, à medida que mais pessoas começavam a fumar. Depois, recuou quando as autoridades norte-americanas de saúde lançaram seu primeiro e famoso alerta geral sobre os riscos do cigarro, em 1964, afirmou Blumenthal, que não tem conexões com os pesquisadores que examinaram as múmias.

Mas Thomas afirma que agora vê o acúmulo de resíduos nas artérias como um fenômeno mais semelhante às rugas – uma condição humana cujo progresso pode ser inibido por atitudes como evitar o fumo e o excesso de sol, mas que em última análise surge inevitavelmente. Caso esse seja de fato o caso, ele afirma, mudanças preventivas de estilo de vida se tornam ainda mais importantes, afirmou.

“Temos de pensar sobre o assunto de maneira diferente, caso todas as pessoas estejam fadadas a desenvolver esse problema”, afirmou Thomas. “Não desejo dizer que seja algo que podemos prevenir, mas é algo que podemos retardar”.

 

Crédito: Terra

 

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