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Após abertura, jovens iraquianas adotam moda ocidental

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As jovens de Bagdá reconhecem que, nos dias atuais, existem preocupações mais sérias do que penteados, roupas e maquiagens.

Mas também dizem que não existe nada que seja tão inspirador quanto poder sair de casa usando um vestido bonito, com os cabelos soltos esvoaçando ao vento – como se o seu país não tivesse sofrido os danos da guerra e do conservadorismo religioso ao longo da maior parte de suas vidas.

“Para as garotas”, disse Merna Mazin, 20 anos, estudante de engenharia na Universidade de Bagdá, “a vida não teria sabor algum sem modas elegantes”.

O que Mazin define como moda elegante apresenta pouca semelhante com relação à costura ou às roupas reveladoras que caracterizam o estilo de verão associado aos países do Ocidente, é claro.

Os cabelos negros de Mazin, com sutis luzes loiras, estão expostos, sem lenço ou véu, e isso representa uma vitória considerável para a universitária, que é cristã mas teve de usar um véu ao estilo muçulmano durante dois anos a fim de evitar se tornar alvo de agressões por parte das milícias islâmicas.

Ainda que as roupas que trazia só pudessem atrair atenção em um dos dias de verão intenso em Nova York por parecerem desconfortavelmente quentes, em Bagdá Mazin é uma das centenas, ou talvez milhares, de jovens que, por conta da liberdade conquistada para cultivar um estilo de elegância mais pessoal, servem como sinal de degelo no conservadorismo cultural que sempre dominou o país.

Depois da invasão liderada por forças norte-americanas, em 2003, as mulheres do país terminaram por ver suas opções de moda em larga medida determinadas por líderes religiosos, nas orações de sexta-feira, e fiscalizadas por milícias armadas que faziam ameaças, sequestravam ou até assassinavam as mulheres que considerassem como provocantes. E, durante um longo período, o conceito de “provocante” era definido como qualquer mulher que saísse à rua sem usar uma “abaya”, a vestimenta em forma de capa que cobre e oculta o corpo feminino dos pés à cabeça.

As mulheres que sofriam ameaças pelo uso de roupas ao estilo ocidental muitas vezes se viam forçadas a deixar seus empregos ou suas escolas e a viver sem sair de casa, ocasionalmente por anos a fio.

Mas agora que a situação de segurança melhorou na capital iraquiana, Bagdá, algumas das mulheres mais jovens começaram a deixar de lado as suas abayas e a vestir trajes mais parecidos com os das mulheres que elas contemplam nos canais de TV de todo o mundo que a cidade recebe via satélite.

A maioria das mulheres dispostas a testar os limites do conservadorismo é formada por universitárias que mal recordam a moda feminina do país nos anos anteriores à guerra. Elas continuam a representar uma população bastante pequena da população feminina da cidade. A maioria das mulheres de Bagdá continua em geral a sair à rua vestindo as disformes abayas negras.

Recentemente, em um dos salões de estudo da Universidade de Bagdá, Mais Mowafaq, 20 anos, ostentava a cabeça coberta por um lenço. Mas o restante de seus trajes, ainda que bastante conservadores, teriam lhe valido uma sentença de morte alguns anos atrás: uma saia preta até os tornozelos, uma camisa preta de mangas compridas e uma longa gargantilha de prata usada por sobre a camisa.

Mowafaq diz que, durante o pior período da violência sectária na cidade, ela havia começado a usar uma abaya sempre que saía à rua, depois que uma vizinha a alertou de que corria o risco de ser raptada, ou pior.

“As milícias não queriam que os corpos das mulheres pudessem ser vistos por sob as roupas, porque isso poderia representar uma atração para os homens”, ela disse. “Mas atrair os homens é pecado? E pecado merecedor da pena de morte?”

Mowafaq afirma que também parou de usar cosméticos, algo que muitas das jovens iraquianas viam como produtos essenciais mesmo durante o mais perigoso período do conflito.

“Todas as minhas maquiagens expiraram, e minha mãe se recusava a ir comigo às lojas para repor o estoque”, conta Mowafaq. “Ela me dizia que o momento não estava para maquiagem, e sim para bombas.”

Dua’a Salaam Sabri, 23 anos, e sua irmã Riam, 16 anos, que parece alguns anos mais velha, se lembram de uma era em que o único perigo real associado ao uso das roupas mais elegantes que tendem a preferir era encontrar flertes mais agressivos da parte dos rapazes que as viam nas ruas.

“Eu daria meus olhos por uma beleza como a sua”, os rapazes costumavam dizer, segundo as irmãs.

Mas, em 2005, dois carros lotados de milicianos pararam Riam na rua, quando ela estava voltando da escola para casa em companhia de seu pai. Os homens tentaram raptá-la, sem sucesso, como punição por não usar o que definiam como “roupas respeitáveis”, conta a adolescente. Ela estava de uniforme escolar quando isso aconteceu – uma saia longa e uma camiseta.

No dia seguinte, a mãe das duas adolescentes, Bushra Khadhom al-Obeidi, comprou as primeiras abayas e véus para suas filhas.

“À medida que as abayas ganhavam popularidade, também se tornaram mais e mais caras”, diz Obeidi.

Riam deixou a escola, e as duas irmãs contam que começaram a sofrer, psicologicamente.

“Você está vendo como fiquei magra?”, diz Dua’a. “É porque eu não conseguia comer. Estava triste. Ficávamos sentadas em casa, e não podíamos ir a lugar algum.”

As irmãs voltaram recentemente a sair de casa, mas em geral só o fazem na companhia da mãe. E retomaram o estilo de vestir que tinham no passado.

Dua’a estava usando uma saia justa de jeans, até os joelhos, e Riam um top branco também justo, e uma saia de denim que ressaltava suas curvas. As duas tinham braços e pernas expostos, o que é bastante incomum no Iraque. Por enquanto, suas abayas ficarão no armário.

Na Fashion Away, uma loja de roupas femininas no bairro de Karada, o proprietário, Hussein Jihad, diz que só roupas tradicionais eram vendidas, até alguns meses atrás.

“Estamos nos adaptando à situação”, ele disse. “Quando as coisas estavam muito mal, vendíamos apenas saias longas, mas agora que tudo melhorou estamos trazendo roupas modernas.”

A loja vende tops com estampa de leopardo, blusas sem manga e outros modelos que não costumam ser vistos com regularidade nas ruas de Bagdá. Também oferece uma minissaia por US$ 35. Jihad conta que comprou 50 minissaias dois meses atrás e que só resta uma em seu estoque.

Hiba, 20 anos, estudante de engenharia na Universidade de Bagdá que pediu que seu sobrenome não fosse publicado porque se preocupa com sua segurança, diz que os anos de incerteza aguçaram sua criatividade.

Em uma recente sessão de estudos para os exames finais, no salão reservado aos estudantes, ela usava um lenço de renda na cabeça, bem como uma saia jeans até os joelhos por sobre um par de leggings brancos. Uma pequena porção de suas pernas aparecia, de logo abaixo dos joelhos até os sapatos pretos.

“Gosto de misturar a moda laica e a islâmica, o que, imagino, faça de mim uma versão moderna da mulher velada”, ela diz, com, um sorriso. “As milícias não conseguiram me forçar a deixar de me preocupar com a aparência, mas os exames finais me deixaram descuidada.”

 

Crédito: Terra

 

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