O passado não é tão passado assim
Costumamos imaginar que ele desaparece, como uma cidade vista pela janela de um trem que continua avançando. Pensamos que os anos ficam para trás, cada vez mais distantes, até se tornarem apenas datas em fotografias amareladas. Mas não é exatamente isso que acontece.
O que passou continua morando em nós de maneiras discretas. Não permanece como presença inteira, mas como aquilo que resistiu ao tempo. Um cheiro de café numa manhã qualquer. Uma canção ouvida por acaso. Uma rua antiga. O nome de alguém pronunciado sem intenção. E, de repente, aquilo que parecia perdido retorna por alguns instantes, não para nos prender ao ontem, mas para nos lembrar quem fomos.
Talvez a verdadeira função do passado não seja exigir retorno. Talvez seja oferecer companhia.
Há lembranças que doem porque apontam ausências. Outras, porém, cumprem tarefa diferente. São reservas silenciosas de afeto guardadas ao longo da vida. Pequenas riquezas acumuladas sem que percebêssemos. Um abraço recebido quando era necessário. Uma amizade que atravessou décadas. Um filho ainda menino segurando nossa mão. Uma neta sorrindo para o mundo como se o mundo acabasse de ser inventado.
Essas lembranças não devolvem o que passou. Nem poderiam. O tempo não anda para trás. Mas elas ajudam a sustentar os dias que continuam chegando.
Viver talvez seja isso: caminhar para diante carregando aquilo que valeu a pena permanecer. Nem tudo o que aconteceu merece ser levado. Algumas dores precisam ser deixadas pelo caminho. Alguns ressentimentos pesam mais do que ajudam. Mas as boas lembranças possuem outra natureza. Não nos puxam para trás. Empurram-nos suavemente para frente.
Por isso o passado não é tão passado assim.
Ele continua presente naquilo que aprendemos, nas pessoas que amamos, nos gestos que repetimos sem perceber e na capacidade de encontrar sentido mesmo quando a vida muda de desenho.
E talvez exista uma forma simples de sabedoria: agradecer pelo que ficou e seguir adiante. Um dia após o outro. Depois outro. E mais outro. Como quem descobre que a memória, quando não é prisão, pode ser uma das maneiras mais delicadas de continuar vivendo.”
João Dos Reis.


